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Um retrato da geração exausta

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    Convidados
  • 22 de ago.
  • 3 min de leitura

Arte: Habner Matheus
Arte: Habner Matheus

Cada vez mais valorizamos o trabalho duro e as conquistas alcançadas, o que, por óbvio, seria sinônimo de triunfo. Mas a que preço? As metas atingidas valem o sacrifício da saúde mental?

Muitas vezes, ouvimos frases como: “faça enquanto eles dormem”, “eles curtem, eu conquisto”, “você descansa, eu cresço”, “Yes, we can”, “basta querer”. Tais slogans criam uma ilusão de liberdade que, na verdade, se traduz em autopressão. A todo momento, cobramos de nós mesmos produtividade em busca da perfeição. Precisamos ser fora da curva no trabalho, atender a padrões estéticos, ser socialmente ativos e, de quebra, intelectualmente completos.

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Vivemos em um estado de autoexploração exaustivo, submetidos constantemente a exigências de desempenho. Nos comparamos o tempo todo: com qualquer post no Instagram, com o coach que lê dez páginas do seu livro todos os dias às cinco da manhã, com a blogueira que acorda de madrugada para preencher o caderno da gratidão antes de malhar às seis, com o amigo que, aos trinta anos, já tem casa própria e ganha o dobro de nós. A todo instante, exigimos de nós mesmos o impossível, espelhando-nos em realidades virtuais que, além de fantasiosas, tornam-se injustas quando usadas como parâmetro de comparação.


O filósofo Byung-Chul Han, em sua magnífica obra Sociedade do Cansaço, sabiamente afirmou: “o sujeito de desempenho se torna prisioneiro de si mesmo”. Não precisamos mais de um chefe carrasco para nos cobrar — somos patrão e empregado ao mesmo tempo. Vivemos uma autoexploração voluntária, na qual a produtividade se tornou um imperativo moral. Nossa vida virou um maçante currículo, onde sempre há algo a melhorar, conquistar ou exibir. Nunca nos permitimos estar satisfeitos. Não sabemos, ou não nos autorizamos, a hora de parar. Até mesmo o fracasso é tratado como responsabilidade individual: se estamos cansados, ansiosos ou doentes, a culpa é nossa — afinal, não nos organizamos bem, não fomos resilientes, não tivemos o mindset correto. Transformamos nossa existência em uma corrida infinita de superação, eficiência e positividade.

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Mesmo quando nos concedemos uma pausa, sentimos culpa por isso. Afinal, deveríamos estar produzindo. Enquanto descansamos, fulano já malhou, já leu, já checou o balanço da empresa. Até nossos momentos de lazer carregam culpa. O que apenas comprova que vivemos em uma sociedade sem exterior: o inimigo não é mais o outro, mas nós mesmos. Não precisamos de vigilância ou punições — o cárcere é interior.

Por esses e outros motivos, como afirma Han, a verdadeira liberdade está em saber dizer não, em recusar, em parar. Em vez de sermos motores de produtividade, devemos ser mais capazes de parar, escutar, simplesmente ser. Não é à toa que somos a geração da depressão, da ansiedade e do burnout… O preço da produtividade desenfreada é cruel: pagamos com a própria saúde mental. Açoitamo-nos a todo momento.


É claro que desejamos atingir nossos objetivos, enriquecer, realizar sonhos. Mas não podemos pagar tais preços com a nossa saúde. É necessário resgatar o tempo livre, o ócio sem culpa, o tédio criativo. Precisamos reaprender o silêncio, o não fazer. Por isso, deixo aqui um convite a todos nós: desacelerar. Duvide da urgência. Questione se essa tal meta vale a sua paz. Nenhum rendimento supera uma mente em paz. O mundo continuará girando enquanto você almoça devagar com a família no domingo. Todo ser humano precisa parar e se recarregar. Cultive o silêncio, o descanso sem culpa, a pausa sem produtividade.

Em meio a tantos prazos, planilhas e metas, esquecemos a subjetividade do simples — que é a vida. Por isso, aprecie e permita-se viver o simples. Abra sua cerveja gelada no churrasco de sábado, escute com atenção e presença as histórias do seu avô no almoço de domingo, retribua o sorriso de uma criança, abra a janela do carro e respire o ar que vem de fora. Seja presente — e sem culpa — nas pequenas belezas do cotidiano. Que graça há em chegar ao topo exausto, se o caminho foi feito sem alma?


Porque, no fim, o que realmente importa — e quase sempre esquecemos — não são os números nem os troféus invisíveis, mas sim a leveza de viver com verdade e presença. Talvez o maior ato de coragem e liberdade seja, simplesmente, parar.

Artigo: Glória Farracha de Castro

 
 
 

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