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O conforto de estar do lado certo

Foto do escritor: Convidados
Convidados
há 11 minutos
4 min de leitura

Tenho pensado sobre a facilidade com que passamos a detestar pessoas que não conhecemos. Basta uma opinião política, uma frase fora de contexto, um posicionamento contrário ao nosso.


A política sempre foi um lugar de conflito. Seria estranho se não fosse. O que me chama a atenção, porém, é a maneira como o conflito deixou de se limitar às ideias e passou a organizar nossas relações. Já não basta discordar. É preciso identificar o outro, classificá-lo, descobrir a qual grupo pertence. Como se isso nos dissesse alguma coisa definitiva sobre ele.


Em 1921, Freud publicou Psicologia das Massas e Análise do Eu. Mais de um século depois, algumas de suas observações parecem particularmente próximas do nosso tempo.


Freud estava interessado em compreender o que acontece com o indivíduo quando ele passa a integrar uma massa. Por que pessoas que, isoladamente, pensariam e agiriam de determinada maneira se comportam de forma tão diferente quando reunidas em torno de uma causa, de uma ideia ou de um líder?


A resposta não estava simplesmente na perda da razão. Freud encontrou algo mais íntimo nessa experiência: o amor.


Para ele, os vínculos que sustentam uma massa são, fundamentalmente, libidinais. Existe um investimento afetivo que mantém as pessoas unidas, uma identificação entre seus integrantes e, em determinadas formações coletivas, a colocação de um mesmo objeto no lugar do ideal do eu.


O ideal do eu diz respeito, entre outras coisas, àquilo que tomamos como referência para nós mesmos. Aquilo que admiramos, que desejamos alcançar, diante do que nos avaliamos. Quando um líder ocupa esse lugar, sua palavra pode adquirir uma autoridade que ultrapassa o conteúdo do que está sendo dito.


Não é difícil reconhecer esse movimento na política.


Pessoas defendem contradições que antes condenavam. Justificam comportamentos que considerariam inadmissíveis se praticados por alguém do outro lado. Repetem discursos sem examiná-los. A fidelidade à figura admirada parece, em alguns momentos, mais importante do que a coerência com os próprios princípios.


Mas seria confortável demais imaginar que esse fenômeno pertence exclusivamente aos outros.


Existe uma satisfação particular em acreditar que estamos do lado certo. Uma espécie de tranquilidade em pertencer a um grupo que confirma nossas convicções, compartilha nossas indignações e reconhece nossos inimigos.


A identificação nos oferece pertencimento. E o pertencimento, por sua vez, pode nos poupar do trabalho de sustentar certas dúvidas.


Freud também escreveu sobre o narcisismo das pequenas diferenças. A expressão aparece em outros momentos de sua obra e ajuda a pensar como grupos próximos podem transformar diferenças relativamente pequenas em motivos de intensa hostilidade. A agressividade dirigida para fora também participa da manutenção dos vínculos internos.


É curioso perceber como a união de algumas pessoas depende da existência de alguém a quem possam odiar juntas.


Nas redes sociais, isso adquire uma dimensão ainda mais trivial. Compartilhamos indignações, encontramos aprovação, reconhecemos os nossos. A discordância vira ofensa. A hesitação, fraqueza. A mudança de opinião, traição.


O pensamento vai perdendo espaço para a necessidade de demonstrar fidelidade.


A política, que deveria nos colocar diante da complexidade da vida coletiva, frequentemente se transforma em um exercício de simplificação. De um lado, os bons. Do outro, os maus. De um lado, a consciência. Do outro, a ignorância.


É evidente que nem todas as posições são equivalentes. Existem diferenças éticas, históricas e materiais que precisam ser reconhecidas. Discordar sobre direitos fundamentais, por exemplo, não é o mesmo que discordar sobre uma preferência qualquer. A crítica à polarização não exige neutralidade diante da violência ou da injustiça.


Ainda assim, penso que existe uma diferença importante entre sustentar uma posição e precisar que ela explique o mundo inteiro.


A psicanálise nos apresenta um sujeito dividido, atravessado por desejos contraditórios, incapaz de conhecer completamente as razões de seus próprios atos. Causa estranhamento a segurança com que algumas pessoas afirmam compreender absolutamente tudo sobre si mesmas e sobre os outros.


Há violência nas certezas que não admitem perguntas.


O que Freud nos permite perceber é que nossas convicções não são feitas apenas de argumentos. Também são atravessadas por afetos, identificações, desejos de reconhecimento e necessidades de pertencimento. Isso não torna toda posição política irracional. Apenas nos impede de imaginar que estamos inteiramente livres daquilo que identificamos nos outros.


Tenho a impressão de que estamos cada vez mais preparados para responder e cada vez menos disponíveis para escutar. E escutar não significa concordar. Significa suportar, por algum tempo, a existência de uma ideia que não confirma a nossa.


Uma das experiências mais difíceis do pensamento é reconhecer que alguém com quem discordamos profundamente pode ter algo a nos ensinar. Ou, ainda, descobrir que uma pessoa com quem concordamos pode estar errada.


Isso exige abrir mão de uma satisfação muito humana: a de pertencer a um grupo que jamais precisa se questionar.


Volto a Freud porque ele desconfiava das explicações que fazemos sobre nós mesmos. Porque mostrou que o amor e a hostilidade podem estar mais próximos do que gostaríamos de admitir. Porque compreendeu que, por trás daquilo que parece uma escolha inteiramente consciente, existem forças que nem sempre reconhecemos.


Autora: Anna Luisa Loyola

Arte por: Matheus Vaz

 
 
 

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