Bom dia, inverno — Tamara Klink

Há livros que a gente termina e há livros que continuam acontecendo dentro da gente.
Bom dia, inverno é, à primeira vista, o relato de uma aventura extraordinária. Oito meses sozinha em um pequeno veleiro, cercada pelo gelo e pela escuridão do inverno da Groenlândia. Mas, conforme as páginas avançam, percebemos que a maior viagem de Tamara Klink talvez não seja geográfica. É uma viagem para dentro.
Existe algo profundamente bonito na forma como ela escreve sobre a solidão. Não como uma ausência que necessariamente precisa ser preenchida, mas como um espaço em que, finalmente, não existe ninguém para quem performar. A própria Tamara se pergunta: “Por quais mudanças a mente vai passando quando estamos sozinhos, sem a necessidade de agradar algum outro?”
Talvez tenha sido isso que mais me tocou no livro, a ideia de descobrir quem somos quando ninguém está olhando. Quando desaparecem as expectativas, o barulho, a pressa e até a necessidade de explicar nossas escolhas. Em meio a uma natureza imensa e indiferente, Tamara nos faz perceber o quanto somos pequenos e, paradoxalmente, o quanto pode existir de liberdade nessa pequenez.
O inverno do título, então, deixa de ser apenas o frio da Groenlândia. Ele se torna silêncio, espera e transformação. Enquanto o mar congela e os dias se transformam em noites quase infinitas, a autora também parece aprender outra relação com o tempo: menos baseada em produzir, chegar ou conquistar, e mais em simplesmente estar. Algumas coisas dentro dela parecem se tornar mais nítidas. Talvez porque o silêncio tenha essa estranha capacidade de amplificar aquilo que passamos a vida tentando abafar.
E curiosamente, não foi a dimensão da aventura que mais me atravessou. Foi a solidão. Ou, talvez, a descoberta de que a solidão nem sempre é falta. Às vezes, ela é espaço. A autora nos deixa muito claro que há uma diferença enorme entre estar sozinha e sentir-se só.
Terminei Bom dia, inverno com a sensação de que algumas viagens não servem para nos levar a lugares novos, mas para retirar, pouco a pouco, tudo aquilo que nos distrai de nós mesmos. E talvez seja por isso que o livro permaneça depois da última página, porque, no fundo, ele não fala apenas sobre uma mulher sozinha no Ártico. Fala sobre quem somos quando o mundo silencia e só resta a nossa própria companhia.
Autora: Glória Maria Almeida Farracha de Castro
Arte por: Matheus Vaz




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