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Este texto contém spoilers da minissérie A Leste do Éden, da Netflix.

Foto do escritor: Convidados
Convidados
há 11 minutos
3 min de leitura

Este texto contém spoilers da minissérie A Leste do Éden, da Netflix.


Nunca me senti confortável em lugares apertados, muito menos em situações nas quais alguém tenta determinar até onde posso ir. Mas existem prisões que não precisam de paredes. Algumas são construídas com expectativas, outras com convenções sociais. Há também aquelas que nascem dos vínculos que estabelecemos, dos afetos que cultivamos e das responsabilidades que, muitas vezes, assumimos sem sequer questionar.


Ao pensar em escrever a crítica sobre a minissérie A Leste do Éden, não achei que seria certo apresentar uma sinopse do enredo ou me deter em questões técnicas. Tudo o que me vinha à cabeça era: Cathy. Uma personagem que me provocou um misto de fascínio, repulsa e curiosidade. Confesso que questionei minha própria índole, pois não a vejo como uma vilã. Para mim, ela é muito mais complexa do que isso. Nós, seres humanos, temos o hábito de rotular tudo entre o bem e o mal.


Cathy inspira, faz com que você pense e questione o próprio destino. Ela não é uma mocinha injustiçada nem uma aparente vítima de um destino cruel. É apenas uma mulher que possui uma fome insaciável de liberdade. Para alcançar tudo o que almeja, ela manipula, confronta e estabelece barreiras tão próprias que a tornam um ser cruelmente fascinante. Monstro. Penso eu. Monstro, ela diz nas primeiras frases da minissérie. Mas será mesmo?


Cathy comete crimes tão cruéis e, ao mesmo tempo, tão necessários sob sua perspectiva que a tornam uma espécie de justiceira. Em nenhum momento pretendo justificá-los ou abrandá-los, dizendo que ela agiu assim na ânsia de sobreviver em um mundo marcado por convenções. O que me interessa aqui é demonstrar o quão vorazes podemos nos tornar na busca pela liberdade.


Em uma época em que as mulheres eram tratadas como propriedades, destinadas a cumprir papéis previamente estabelecidos e fadadas a casamentos arranjados, à maternidade e à respeitabilidade social, Cathy não aceita que alguém tenha o direito de decidir por ela. O que aprendeu desde muito cedo é que o único modo de sobreviver em uma sociedade dominada por homens é saber usar o poder da beleza para seduzir e manipular.


Cathy é muito mais profunda do que a imagem que constrói para os outros. Sua inteligência está também na capacidade de compreender o que os outros desejam e de atender a essas expectativas. Ela não precisa revelar quem é para exercer poder sobre aqueles que acreditam possuí-la.


Mas é na maternidade que minha interpretação da personagem encontra uma de suas questões mais inquietantes.


Há algo particularmente perturbador na recusa de Cathy em alimentar os próprios filhos e até mesmo em olhar para eles. Talvez porque o olhar seja o primeiro gesto de reconhecimento do outro, o instante em que se inaugura um vínculo. Ao negar esse gesto, Cathy parece recusar a própria existência da ligação entre mãe e filhos. Como se aquilo que não é reconhecido jamais tivesse existido.


É uma interpretação incômoda, eu sei. Porque, ao mesmo tempo que questiono as amarras impostas às mulheres, não posso ignorar que a liberdade de Cathy tem consequências devastadoras para outras pessoas. A recusa em se submeter não apaga a responsabilidade pelo sofrimento que provoca. Tampouco a compreensão de suas motivações transforma seus atos em algo aceitável.


Ainda assim, não consigo deixar de admirar sua obstinação. Não faria o que ela fez, mas reconheço nessa mulher uma determinação que desafia a vida idealizada que lhe foi oferecida. Cathy não quer apenas escapar de um destino. Ela traça, de forma solitária, o próprio caminho, mesmo quando suas escolhas ultrapassam todos os limites morais.


E é aqui que a personagem nos faz refletir novamente sobre uma questão: de onde nascem os monstros? Da natureza humana ou da crueldade de uma sociedade cega? Talvez a pergunta não tenha uma resposta simples. Talvez algumas pessoas, assim como Cathy, sejam capazes de atrocidades independentemente das circunstâncias. Mas isso não nos impede de questionar os mundos que construímos, as regras que naturalizamos e os julgamentos que fazemos antes de tentar compreender aquilo que nos assusta.


Cathy pode ser um monstro. Mas chamá-la assim encerra a discussão antes mesmo de ela começar.


E talvez seja justamente isso que torna a personagem ainda mais interessante: ela nos obriga a olhar duas vezes para aquilo que não desejamos ver, mesmo quando a primeira impressão parece suficiente.


E, em meio a esses pensamentos, eu te pergunto:

Será que você vê o mesmo que eu vejo?


Autora: Daniela Amaral

Arte por: Matheus Vaz

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