A riqueza que não se posta

Em “Coisa de Rico: a vida dos endinheirados brasileiros”, o antropólogo Michel Alcoforado transforma anos de pesquisa de campo em um retrato afiado e bem-humorado das elites do país. Fenômeno editorial desde o lançamento, em 2025, o livro parte de uma constatação curiosa: quase nenhum brasileiro rico se considera, de fato, rico. Como a riqueza no Brasil é relacional, haverá sempre alguém com mais dinheiro, mais patrimônio, mais proximidade do topo, os ricos são sempre os outros. Alcoforado percorre tipos reconhecíveis, do casal que viaja a Miami para comprar roupa de grife à herdeira que vive discretamente na Suíça, revelando os códigos simbólicos que sustentam privilégios e naturalizam desigualdades.
O grande mérito da obra é escancarar a lógica da ostentação: a riqueza, no Brasil, precisa ser vista para existir socialmente. A bolsa, a viagem, o tênis, o clube, tudo exposto nas redes sociais como prova de status. Mas é justamente aí que mora a fragilidade dessa riqueza performada. Como o próprio autor observa, o símbolo ostentado online perde valor no instante em que se torna acessível a muitos, e a corrida por reconhecimento nunca termina. É uma riqueza ansiosa, que depende do olhar do outro para se sentir real.
Existe, no entanto, uma riqueza de outra natureza, que o livro apenas sugere e que vale a pena explicitar: a riqueza de quem está resolvido consigo mesmo. Essa pessoa não precisa mostrar nada, porque não precisa provar nada. Ela investe em coisas que não aparecem em foto, um bom colchão, um travesseiro adequado, uma noite de sono decente, uma alimentação de qualidade, tempo livre, silêncio. Viaja de classe executiva, mas não posta o embarque. Veste roupa boa, mas não pelo logotipo. O luxo, para ela, é funcional e silencioso, não é um discurso para plateia.
Mais do que isso, essa riqueza verdadeira se mede pela responsabilidade social que carrega. Quem está espiritualmente resolvido entende que ter mais impõe o dever de fazer mais pelos que têm menos, seja auxiliando quem precisa, seja usando a própria posição para reduzir alguma desigualdade ao redor. Essa pessoa compreende que sua responsabilidade é maior do que a da maioria, exatamente porque tem mais condições de exercê-la, e cumpre esse papel sem holofote, sem hashtag, sem prestação de contas pública.
Lido sob essa perspectiva, “Coisa de Rico” funciona como um espelho invertido: ao descrever os códigos da ostentação, deixa entrever, por contraste, o que realmente distingue quem é rico de verdade. Não é o que aparece no feed, é o que sustenta a vida por dentro: bem-estar, generosidade e a paz de quem não precisa da aprovação alheia para saber quem é.
Autor: Carlos Alberto Farracha de Castro
Arte por: Matheus Vaz




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