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A memória não é um lugar intacto

Foto do escritor: Convidados
Convidados
há 3 horas
3 min de leitura

A memória tem uma péssima reputação. Dizem que falha, distorce, exagera, inventa. E é por isso que ela é uma boa matéria literária. Um fato intacto pertence ao arquivo. Uma lembrança, não. Ela retorna carregando aquilo que sentimos depois, as palavras que encontramos tarde demais e, principalmente, tudo o que precisamos esquecer para continuar vivendo.


A autoficção nasce assim: entre o que aconteceu e aquilo que conseguimos narrar. Não como uma mentira, mas como o reconhecimento de que nenhuma verdade pessoal chega inteira à linguagem. Quando escrevemos sobre o passado, já não somos exatamente quem o viveu. Somos alguém olhando de longe, tentando nos reconhecer naquilo que imaginamos lembrar.


A teoria literária tentou dar nomes a esse intervalo. Philippe Lejeune falou em pacto autobiográfico: o compromisso firmado entre escritor e leitor de que aquilo aconteceu. Em 1977, Serge Doubrovsky criou o termo autoficção para nomear o território em que autobiografia e ficção se confundem. Desde então, a palavra passou a abrigar quase toda escrita em primeira pessoa. Hoje, parece abrigar coisas demais.


Emmanuel Carrère e Annie Ernaux escrevem a partir desse descompasso, embora sigam caminhos (quase) opostos. Carrère escreve sobre o mundo querendo se descolar de si, mas acaba trombando consigo mesmo no texto. Ernaux escreve sobre si para encontrar os outros.

Emmanuel Carrère possui um “eu” inquieto, indiscreto, por vezes incômodo. Ele observa vidas alheias, crimes, crenças, desaparecimentos e tragédias, mas nunca consegue permanecer completamente fora daquilo que narra. Há sempre um espelho escondido atrás de cada personagem.


A primeira pessoa, em Carrère, marca o limite daquilo que ele sabe. Em vez de se esconder atrás de uma voz aparentemente neutra, ele assume que existe um olhar parcial organizando os fatos. O “eu” oferece menos certeza e mais responsabilidade. Por isso, o escritor prefere chamar seus livros de romances não ficcionais. A matéria é real; o olhar, romanesco.


Ao tentar compreender Jean-Claude Romand, em O adversário, Carrère não investiga apenas a mentira de um homem, mas a fragilidade das identidades que construímos para sermos amados, aceitos ou simplesmente suportáveis. Existe, ainda, uma questão ética. Romand existiu. Os crimes aconteceram. Nesse caso, chamar o livro de autoficção poderia aliviar o peso do real. Quando um escritor afirma que algo aconteceu, a frase produz consequências fora da literatura.


Em Ioga, esse pacto se torna menos estável. Carrère admite que omitiu e alterou partes da história, embora não revele exatamente quais. A fissura, no entanto, aparece no próprio livro. O leitor sabe que a verdade foi reorganizada.


Ernaux faz um movimento diferente. Sua escrita retira da intimidade aquilo que parece exclusivamente individual. A vergonha, o desejo, o aborto, a família, a ascensão social, o envelhecimento e o corpo deixam de ser apenas lembranças pessoais e se tornam documentos de uma época.


Ela também rejeita a ideia de autoficção. Sabe que a memória é diferente da realidade, porém essa distância não lhe concede licença para inventar. A mulher que escreve investiga a mulher que viveu. Em Os anos, fotografias, propagandas, canções, refeições e frases repetidas em família formam uma memória coletiva. O “eu” cede espaço ao “nós”. Sua vida passa a registrar as mudanças de uma sociedade inteira.


A riqueza dessas escritas está na memória que nunca é apenas nossa. Lembramos com as palavras que recebemos, com as fotografias que alguém escolheu guardar, com as versões familiares que se repetiram tantas vezes que passaram a ocupar o lugar dos fatos.


Lembrar também exige escolher, cortar, omitir e reorganizar. Isso não torna uma lembrança necessariamente falsa. Apenas revela o trabalho da linguagem sobre aquilo que foi vivido. Toda memória é íntima, mas também política. Há sempre uma época vivendo dentro de nós.


Autora: Anna Luisa Loyola

Arte por: Matheus Vaz

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