A Entrelaçadora de Mundos

Diziam que ela tinha uma vida tranquila, organizada e, por que não dizer, ideal. E, de fato, diante dos olhos curiosos que a observavam, tudo parecia estar no lugar.
As manhãs começavam serenas, os caminhos eram previsíveis, e os dias seguiam em rotina e planejamento. Mas havia algo nela que não cabia naquela ordem silenciosa. Dentro daquela aparente serenidade, existia uma inquietação — quase imperceptível — que sussurrava: explore as fronteiras.
Ela tinha a certeza de que havia muito mais em tudo o que vivia. Sabia que era chegada a hora de expandir, de atravessar mundos.
No início, eram pequenos deslocamentos. Um pensamento mais profundo aqui, uma sensibilidade ampliada ali. A cada passo, sabia que devia — e podia — ir além. Começou a sentir o que não era dito, organizando seu ego caótico. Compreendeu histórias que não eram suas — e, ainda assim, de alguma forma, descobriu que eram.
Adaptou-se com facilidade. Em cada novo ambiente, tornava-se parte dele, como um camaleão que não apenas se camufla, mas entende a floresta.
Havia um mundo onde as pessoas carregavam silêncios pesados e sombrios — e ela os transformava em palavras. Em outro, onde emoções transbordavam — e ela levava serenidade. Em alguns mundos, tornou-se guia. Em outros, apenas presença.
Satisfazia-se em não ser única, em não ser sempre a mesma.
No meio de tantos universos, criou o seu próprio. Um espaço único, feito de fragmentos: memórias, aprendizados, encontros. Ali, como uma bibliotecária apaixonada, organizava tudo com um cuidado quase sagrado. Cada história tinha um lugar. Cada pessoa, um significado.
À noite, quando tudo silenciava, ela se recolhia. E, como uma professora, saboreava cada conhecimento adquirido e ensinado ao longo do dia. Planejava os próximos passos e, como uma mãe dedicada, fazia planos.
Sentia prazer em alimentar a alma antiga que já havia vivido muitas vidas. Sentia paz. Uma sensação de propósito cumprido, mesmo sem saber exatamente qual era.
Ela cuidava, orava, meditava. E, principalmente, sonhava.
Nunca conseguiu se prender a um único caminho. Tentou, às vezes. Achou que talvez fosse mais fácil ser uma só versão de si mesma. Mas, sempre que tentava se limitar, algo dentro dela se desfazia.
Porque ela não era feita para caber em um único universo.
Era feita para transitar.
Para conectar.
Para transformar.
E, embora poucos entendessem, havia uma verdade que ela carregava em silêncio:
Ela não estava perdida entre mundos.
Ela era a ponte.
A entrelaçadora de mundos.
Universo. Planeta Terra. Pinhais, 20 de março de 2026
Autora: Daniela Amaral
Arte por: Matheus Vaz




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