Resenha de livro: Em agosto nos vemos
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Este não é um livro sobre traição.
É um livro sobre desejo, aquele que aparece quando a vida já está organizada, quando os papéis já foram assumidos, quando teoricamente já deveríamos estar completos.
A protagonista constrói um ritual anual, discreto, quase silencioso. Um deslocamento breve da própria vida, que não busca ruptura nem explicações. Não há grandes conflitos externos, apenas um movimento interno: o reencontro com uma parte de si que nunca deixou de existir, mas foi sendo adiada em nome das escolhas certas, da estabilidade, do que se espera.

Na narrativa, Gabriel García Márquez escreve com contenção. O texto é curto, econômico, cheio de espaços. Muito do que importa não é dito, é sugerido. Não há julgamento moral nem necessidade de justificar sentimentos. O leitor apenas acompanha, quase como cúmplice, essa experiência íntima, feita mais de sensações do que de acontecimentos.
O corpo ocupa um lugar central. Um corpo que envelhece, mas não se cala. Que ainda deseja, não por carência, mas por presença. Há algo de profundamente humano na maneira como o livro olha para o desejo feminino: sem culpa, sem punição, sem excessos. Como algo que simplesmente permanece, mesmo quando a protagonista acredita já ter se tornado quem deveria ser.

Nos vemos em agosto não oferece respostas. Ele permanece. Fica como um espelho discreto, desses que a gente evita encarar por muito tempo.
Porque a pergunta que ele deixa é simples e difícil de ignorar: o que em mim ainda vive, apesar de tudo que eu já me tornei?
Artigo por: Glória Maria Almeida Farracha de Castro
Arte por: Habner Matheus







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