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All her fault: Quem paga o preço da narrativa?

  • Foto do escritor: Convidados
    Convidados
  • há 4 dias
  • 3 min de leitura


O ponto de partida é um desaparecimento. Ainda assim, “All Her Fault”1 não se organiza em torno do mistério. O que gruda é outra coisa, mais antiga, mais estrutural. Talvez por isso a série se deixe ver em uma sentada. O que ela entrega vai além do suspense.


As mulheres fazem tudo. E quando fazem tudo, fazem em silêncio. Levam à escola, acordam de madrugada, organizam a casa, sustentam a rotina, administram afetos, agendas e culpas. Ainda tentam existir profissionalmente, como se isso fosse um extra, nunca o centro. Ao redor delas, os homens orbitam. Estão presentes, mas não implicados. Não assumem o trabalho invisível, assumem o discurso. Elogiam. Aplaudem. Dizem que elas são incríveis, supermães. E, com isso, seguem livres da parte mais cara do cuidado: a que consome tempo, corpo e energia.


O investigador surge, à primeira vista, como uma exceção. Mais atento ao filho, mais disponível, mais presente do que os demais homens da narrativa. Esse traço quase engana. Porque, conforme a história avança, o que parecia desvio revela-se apenas uma variação do mesmo arranjo. A esposa trabalha em tempo integral fora de casa e, ao retornar, assume também o trabalho doméstico, o cuidado cotidiano, a organização da vida. Ele participa, mas não sustenta a engrenagem. O cuidado permanece feminizado, tratado como um recurso natural, elástico, inesgotável.

 


A série toca, sem alarde, na lógica econômica da maternidade. O cuidado move tudo, mas não entra na conta. Sustenta rotinas, viabiliza carreiras, mantém a vida funcionando, mas permanece fora das planilhas, fora do reconhecimento, fora da linguagem do valor. Não vira dado, não vira crédito, não vira direito. Não importa o quanto essa mulher seja rica, escolarizada ou cercada de apoio. A equação nunca fecha a favor dela.


1 Disponível no Prime Vídeo.


Algo sempre recai sobre a mesma figura. Quando falta, é ela quem percebe. Quando sobra, é ela quem administra. A gestão final das urgências, a costura dos afetos, a decisão que ninguém quer tomar. E, quando algo falha, a responsabilidade última encontra um destino previsível. A culpa. Como se o cuidado fosse uma dívida permanente, sempre em aberto, sempre cobrada da mesma pessoa.


Trata-se de uma economia silenciosa, que não paga salário, não concede descanso e não admite inadimplência. Uma lógica que se sustenta na ideia de que o cuidado é natural, espontâneo, inesgotável. E, justamente por isso, não precisa ser dividido, nem remunerado, nem protegido. Apenas exigido.


O título não disfarça. “All Her Fault” (tudo culpa dela, em português) funciona em dois planos. No da série, aponta um crime, um enigma, uma culpa a ser investigada. Fora da tela, nomeia algo muito mais conhecido. Uma língua antiga, repetida todos os dias, que atribui às mães a falha, o excesso, a falta.



É assim que a culpa circula: muda de forma, nunca de destino. Se trabalha demais, falha. Se trabalha de menos, também. Se sustenta tudo, exagera. Se algo desmorona, responde. Enquanto isso, mantém em funcionamento uma economia inteira que não paga salário, não concede descanso e não reconhece valor.


Em troca, resta a palavra que parece elogio, mas funciona como compensação simbólica. “Você é maravilhosa.” A palavra circula pouco. Não redistribui o peso, não desloca a culpa, não altera a conta. Quando algo falha, ela já não serve. A economia segue intacta. A imputação também.


Artigo por: Anna Luiza Borges Klotz

Arte por: Habner Matheus

 
 
 

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