As Margens da Alegria e o Instante em que a Infância se Rompe
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Às margens da alegria é um conto publicado em 1962 por Guimarães Rosa, no qual acompanhamos um menino em uma viagem com os tios. Tudo ali se apresenta como descoberta: o voo, o campo, os animais, as cores. A linguagem acompanha o modo infantil de perceber. As frases se movem como se fossem vivas. Há excesso de vida em tudo. O menino sente mais do que vê e mais do que consegue descrever.
No início, percebemos, ainda, a imensa expectativa, descrita como “uma viagem inventada no feliz”. Do avião à chegada, tudo é imensa alegria e deleite, descobertas e novas sensações, algo que só a infância pode proporcionar.
Beleza, presença, vida. Algo que ocupa o espaço inteiro do olhar. Algo que faz o mundo parar por um instante. No passeio com os tios, inebriado pela presença de um peru, o menino se anima com a alegria da vida.
Até que, num instante, tudo parece mudar.
Ao retornar do passeio, o menino percebe que o peru morreu e que, mais tarde, serviria de refeição para a família. E, então, o que era excesso começa a faltar: “Tudo perdia a eternidade e a certeza; num lufo, num átimo, da gente as mais belas coisas se roubavam. Como podiam? Por que tão de repente? Soubesse que ia acontecer assim, ao menos teria olhado mais o peru aquele. O peru-seu desaparecer no espaço. Só no grão nulo de um minuto, o menino recebia em si um miligrama de morte.”
Não se trata apenas de tristeza. É outra coisa. É o primeiro contato com a ideia de que o mundo não responde ao desejo. De que a alegria não é garantida.
O menino tenta guardar aquela alegria vivida, como se fosse possível protegê-la do que veio depois. Como se fosse possível manter intacto o instante anterior à perda. Mas já não é.
A infância não acaba ali. Mas deixa de ser inteira.
E o texto nos mostra que crescer é perceber que a alegria existe, mas nas margens. Nunca no centro. Sempre cercada pelo risco de desaparecer. Não como falta, mas como condição. A alegria deixa de ser algo contínuo, garantido, e passa a ser algo que acontece apesar. Apesar do tempo, apesar da perda, apesar do que escapa.
O que antes ocupava o mundo inteiro agora precisa dividir espaço com a ausência, com a possibilidade de fim, com a consciência de que aquilo que é vivido não pode ser retido.
A infância permite a ilusão de um centro estável, onde tudo pode durar. O que o menino encontra não é apenas a perda do peru, mas a perda dessa organização do mundo. A alegria deixa de ser o lugar onde se vive e passa a ser o instante que se percebe.
No final, quando surge o vagalume, há um lampejo. Pequeno, breve, quase insuficiente. Mas, ainda assim, uma nova forma de alegria: “Voava, porém, a luzinha verde, vindo mesmo da mata, o primeiro vagalume. Sim, o vagalume, sim, era lindo! — tão pequenino, no ar, um instante só, alto, distante, indo-se.”
Autor: Anna Luisa Loyola
Arte por: Matheus Vaz




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