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O que Ivan Ilitch não teve tempo de responder

  • Foto do escritor: Convidados
    Convidados
  • há 13 horas
  • 3 min de leitura

Chego à leitura de A Morte de Ivan Ilitch depois de semanas engolindo textos técnicos, doutrina jurídica e empresarial, o vocabulário pastoso do mundo corporativo. Minha última leitura fora desse universo havia sido Sinal Verde, de Matthew McConaughey. A justaposição não foi planejada, mas disse algo.

 

Os dois livros se encontram num ponto de ruptura: o momento em que um homem olha para a própria vida e não se reconhece nela. McConaughey chega lá ainda a tempo. Larga a bajulação de Hollywood, vai para a África, volta diferente, o Oscar vem depois. Ivan Ilitch chega ao mesmo lugar. Mas o dele é no leito de morte, com a clareza de quem finalmente enxerga e já não pode fazer nada. Dois homens, o mesmo reconhecimento, desfechos opostos. A diferença entre eles não é de caráter. É de tempo.

 

Tolstói publicou a novela em 1886. Ela envelheceu mal no pior sentido: continua absolutamente verdadeira.

 

O enredo é simples até ser cruel. Ivan Ilitch é magistrado, construiu uma vida exemplar. Carreira ascendente, casamento conveniente, casa decorada com o gosto da época, as amizades certas. Uma vida sem riscos, pavimentada por conveniências e pela aprovação alheia. Então ele adoece. E no lento processo de morrer, cercado por uma família que prefere a sua morte à sua doença e por médicos que tratam o caso como problema técnico, Ivan faz a única pergunta que havia evitado a vida inteira: isso foi uma vida?

 

A resposta que ele encontra é insuportável.

 

O que me perturbou não foi a morte em si. Foi perceber o mecanismo que leva alguém até ali sem perceber. Ivan não fez escolhas monstruosas e absurdas. Fez escolhas seguras. Fez o que fazia sentido, o que era esperado, o que rendia aprovação. Fez o que qualquer um faria. E foi exatamente isso, a ausência de atrito, a vida sem resistência, que o deixou vazio.

 

Existe um estado que nos protegeria disso e que estamos cada vez mais incapazes de suportar: o tédio. Não o tédio como sintoma de uma tarde improdutiva, mas o tédio como condição de encontro consigo mesmo. É quando a cabeça caminha sem uma linha lógica imposta, sem uma notificação para responder ou uma série para continuar, que os pensamentos perguntam coisas que não estavam programados para perguntar. Coisas incômodas. Coisas sobre escolhas, sobre direção, sobre o que estamos de fato construindo. O celular, o scroll infinito, a oferta inesgotável de entretenimento, tudo isso nos poupa desse desconforto. E poupar-se desse desconforto, indefinidamente, é o caminho mais pavimentado até o fim de Ivan. Encarar a morte com um vazio avassalador, sem ter de fato começado a viver.

 

Há um personagem secundário que carrega o peso moral de toda a obra: Gerasim, o jovem servo que cuida de Ivan nos últimos dias. Simples, sem pretensão, sem teatro. Enquanto todos ao redor fingem que Ivan vai melhorar, Gerasim é o único que não finge. Cuida com uma humanidade direta, sem filtro, sem o verniz social que contamina todas as outras relações do livro. Tolstói coloca a redenção justamente ali, não num intelectual, não num homem de posição, mas num homem que simplesmente não aprendeu a ser falso. É um detalhe que diz muito sobre o que o autor pensava da vida que Ivan escolheu.

 

A pergunta que ficou não é abstrata: o que em mim é Ivan Ilitch? Quais escolhas estou fazendo por conveniência? Quais caminhos estou seguindo porque fazem sentido para os outros? Qual vida estou construindo, e para quem?

 

Tolstói não responde. E aqui reside a generosidade brutal e cruel do livro. Ele te entrega a pergunta e vai embora.


Autor: Emanuel Weber

Arte por: Matheus Vaz

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