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A Vida Não Me Atrasou, Ela Me Lapidou

  • Foto do escritor: Convidados
    Convidados
  • há 7 dias
  • 4 min de leitura

Por muito tempo convivi com a sensação de estar correndo contra o tempo, atrasada perante as comparações que eu mesma fazia.


Aos 17 anos comecei estudar para o vestibular de medicina, e a aprovação veio, mas acompanhada de uma ressalva que eu não consegui sustentar na época.

Para realizar meu sonho, eu teria que me mudar de cidade, no começo fui tomada pela emoção da aprovação e me deixei levar pelo êxtase. Mas quando a realidade bateu na porta, eu tive que encarar e admitir meus medos em me mudar tão nova. Eu não queria e não me sentia pronta para sair de casa. Por muito tempo, me culpei, questionava minha maturidade e a ideia do “e se eu tivesse ido”, me encontrava em toda esquina.


Foram tempos de incerteza, e muitos questionamentos internos. A maioria a minha volta já estava no segundo ano de faculdade, meus amigos agora eram universitários. Hoje eu sei, a comparação era injusta, mas ela sempre me visitava.


Na metade de 2019 eu resolvi dar uma chance a faculdade de Direito, afinal eu sempre gostei de um bom debate, nunca foi omissa em relação as minhas convicções e tinha grandes exemplos dentro de casa que seguiram tal carreira.


Cursei 6 messes de forma presencial e de repente o mundo parou devido a pandemia…. Em meio a tempos incertos e sombrios, as minhas velhas incertezas voltaram. Mas dessa vez elas vieram mais altas. Não teve um dia se quer que eu não me perguntava se eu não devia ter entrado no avião e ido em busca do meu sonho. Mas eu ainda ficava confusa, será que eu não gostava da faculdade de direito porque estava de forma remota? Será que quando as aulas voltarem a ser presencial eu vou me encontrar? Será que eu vou ser feliz fazendo direito? Mas quando a gente deita pra dormir, a reunião com nós mesmos é mais bruta, sincera. E eu sempre soube, meu sonho sempre foi ser médica.


E não posso dizer que fiquei surpresa, mas quando as aulas de direito voltaram ao presencial, eu fui obrigada a encarar quem eu mais temia, eu mesma. E dessa vez a conversa foi diferente, foi franca mas cheia de medos. Afinal, eu ja estava na metade do curso, fazia estagio no escritório do meu pai… o caminho estava quase que trilhado para mim. Eu teria que encarrar um cursinho novamente, enquanto todos a minha volta estariam se formando eu estaria ingressando em uma nova faculdade… mas eu tive que admitir, eu estava no caminho contrario a minha felicidade.


E nesse processo que borbulhava dentro de mim, tiveram dois episódios que eu tenho certeza que me solidificaram. Um deles, foi durante um almoço com meus pais, onde minha mãe com o rosto sereno de quem já sabia de tudo - o dom das mães - se virou para mim e disse “ eu só te desejo que você tenha coragem de ir em busca dos seus sonhos” e nesse mesmo dia meu pai antes de ir para o trabalho, passou no quarto, me deu um beijo de tchau e antes de fechar a porta me olhou e disse “ eu quero sua felicidade, seja ela como for, eu só quero que você faça algo que te deixe feliz”. E o segundo episódio foi quando eu estava no carro com a minha irmã, contando para ela de toda minha confusão. Eu não sabia se largava direito, se voltava para o cursinho, se fazia outro curso que não fosse medicina, aquela altura eu tinha cogitado ate cursos técnicos e foi quando ela com sua forma dura, mas cheia de amor se virou para mim disse “eu só acho que você pode tão mais”.


Eles não sabiam, mas eles me deram o alicerce possível para que eu largasse tudo para o alto. Para que eu desse espaço para o que o meu intimo ja sabia a muito tempo.E assim eu fiz, tranquei minha matricula na faculdade de direito e voltei as cadeiras do cursinho. Confesso que não foi fácil, eu me sentia dando passos para trás, mas no fundo eu respirava aliviada. E no final de 2023 eu fui aprovada na faculdade de medicina.


E hoje posso dizer com o coração tranquilo, eu daria mil passos para trás para estar onde estou. A vida não me atrasou, ela me lapidou. Hoje eu entendo, que todo o processo fez eu ser quem eu sou, me moldou, me deu ferramentas para que eu pudesse ser minha versão mais genuína. Hoje eu não encaro como um atraso no meio do caminho, eu entendo que eu precisava passar por esse caminho. A vida me exigiu coragem, e eu provei a mim mesma que não fujo de uma batalha.


Existe a analogia do vagão do trem, que quando percebemos que pegamos o trem errado é melhor descer na próxima estação para viagem de volta não ser tão longa. Pois é, minha viagem de volta foi longa, desci tarde, mas cheguei onde meu coração sempre soube morar. Entendi que o caminho é tão importante quanto o destino final. Pude sentir na pele que não existe idade ou cenário ideal, sempre é tempo de recalcular a rota e seguirmos nossos sonhos.


Hoje eu sigo sem pressa. Aprendi que o tempo não é um inimigo a ser vencido, mas um mestre a ser escutado. Por muito tempo achei que coragem fosse apenas ir, avançar, insistir. Hoje eu sei, coragem também é parar, voltar, recomeçar. Nada em mim foi em vão, cada medo, desvio, espera, construiu o chão onde eu agora piso. Eu não me perdi no caminho, me encontrei nele. A gloria que sonhava aos 16 anos em ser médica, nunca esteve errada, ela só esperou que eu aprendesse a sustentar o próprio sonho. Não cheguei atrasada à minha vida, cheguei inteira.


Autora: Glória Maria Almeida Farracha de Castro

Arte por: Matheus Vaz


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