Silksong e a arte de continuar
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- 14 de jan.
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Hollow Knight: Silksong é um jogo que começou a existir muito antes de chegar às mãos do jogador. Anunciado em 2019, ele atravessou mais de seis anos de silêncio, espera e especulação, tempo suficiente para deixar de ser apenas um projeto e se tornar um sentimento coletivo. A longa ausência de respostas, longe de enfraquecer o jogo, acabou se integrando à sua identidade. Silksong passou a simbolizar paciência, cuidado e confiança no processo criativo. Valores raros em uma indústria cada vez mais apressada. Quando finalmente chega, ele não soa atrasado. Soa necessário.
Para entender Silksong, é preciso retornar a Hollow Knight e ao peso silencioso que ele carrega. No jogo original, o jogador controla o Knight, uma figura pequena, sem voz e sem rosto, que desce às entranhas do reino de Hallownest. Esse mundo, habitado inteiramente por insetos, não usa essa escolha estética apenas como curiosidade visual. Ao transformar criaturas frágeis em reis, cavaleiros, trabalhadores e divindades, o jogo cria uma escala emocional peculiar: tudo parece minúsculo, mas carrega uma antiguidade esmagadora. As cidades são feitas de restos orgânicos, os caminhos passam por túneis vivos, e a decadência não é um acidente é parte natural daquele ecossistema. Há beleza nisso, mas também um cansaço profundo, como se o mundo estivesse apenas aguardando o momento de descansar.
O Knight existe dentro desse cenário como um corpo a serviço de um destino que não escolheu. Ele não fala, não reage, não questiona. Sua jornada é sobre aceitação e apagamento. Conforme a história se revela, fica claro que sua função é conter a infecção que consome Hallownest, mesmo que isso exija seu desaparecimento completo. O final de Hollow Knight, em qualquer de suas variações, nunca é confortável. Mesmo nos desfechos considerados mais positivos, permanece a sensação de que algo foi perdido para sempre. O mundo pode ser salvo, mas apenas porque alguém aceitou deixar de existir.

É nesse silêncio que Hornet surge. No primeiro jogo, ela aparece como ameaça, guardiã e observadora. Diferente do Knight, Hornet fala, provoca e demonstra consciência de si. Ela sabe de onde veio e carrega o peso dessa origem. Desde suas primeiras aparições, ela funciona como um contraste vivo: enquanto o Knight representa o vazio que aceita o sacrifício, Hornet representa o conflito de quem ainda quer escolher. Sua presença sugere que talvez haja outra forma de responder ao colapso daquele mundo.
Silksong nasce exatamente dessa possibilidade. Agora protagonista, Hornet atravessa um novo reino, também povoado por insetos, mas radicalmente diferente em atmosfera. Esse mundo ainda pulsa. Ele não está morto, está tenso, sustentado por estruturas frágeis e fios de seda que parecem prestes a se romper. A verticalidade do cenário transforma a jornada em ascensão constante. Subir, em Silksong, não é vitória; é esforço contínuo. Cada avanço exige equilíbrio, persistência e aceitação da queda. É uma experiência que conversa diretamente com o corpo e com o cansaço do jogador.
Hornet, como protagonista, transforma o tom da narrativa. Ela sente, reage, erra e insiste. Sua história é marcada por criação forçada, expectativas herdadas e um legado que nunca pediu para carregar. Diferente do Knight, ela não deseja desaparecer para salvar o mundo. Ela deseja existir sem ser engolida por ele. Sua jornada é íntima, quase dolorosa, porque fala sobre aprender a viver sem negar o passado, mas também sem se deixar definir completamente por ele.
A seda, elemento central do jogo, traduz essa ideia com delicadeza. Ela conecta e sustenta, mas também aprisiona. Os fios que mantêm o mundo de pé são os mesmos que limitam os movimentos. Hornet aprende que não é preciso destruir toda a teia para seguir em frente. Às vezes, basta cortar um fio. Às vezes, é preciso atravessá-la com cuidado. A metáfora é simples e profundamente humana: crescer não é romper com tudo, mas escolher conscientemente o que permanece.
O final de Silksong reforça essa leitura com maturidade. Sem recorrer a soluções fáceis ou encerramentos absolutos, o jogo opta pela continuidade. Diferente do destino do Knight, que se confunde com o próprio fim, Hornet conclui sua jornada com a possibilidade de permanecer. O jogo não promete paz eterna nem respostas completas. Ele oferece algo mais honesto: a chance de continuar carregando o peso do mundo, agora de forma consciente.

Tudo isso só é possível graças ao trabalho extremamente coeso da Team Cherry grupo desenvovedor. Ari Gibson dá forma a esse universo com sua direção artística desenhada à mão, criando cenários que equilibram delicadeza e decadência com precisão quase melancólica. William Pellen constrói a base da experiência através do design de gameplay, refinando combate e movimentação em uma estrutura claramente inspirada em clássicos do estilo metroidvania 2D, onde exploração, retorno a áreas anteriores e progressão por habilidades definem o ritmo da jornada. Já a trilha sonora de Christopher Larkin age como uma voz invisível, preenchendo os silêncios com emoção, tensão e, ocasionalmente, esperança. Sua música não guia; ela acompanha, respeitando o espaço de quem joga.
A escolha por um mundo habitado por insetos amplifica todos esses sentimentos. A fragilidade dessas criaturas contrasta com a grandiosidade das construções e dos conflitos, criando uma sensação constante de impermanência. Tudo parece pequeno demais para carregar pesos tão antigos, e ainda assim carrega. Essa tensão entre o efêmero e o eterno é o que torna o universo de Hollow Knight e Silksong tão marcante.
No impacto cultural, Silksong reafirma algo que Hollow Knight já havia mostrado ao mundo: jogos independentes podem ser arte no sentido mais sensível da palavra. Eles podem falar sobre cansaço, identidade, legado e persistência sem precisar dizer tudo em voz alta. Silksong não exige pressa. Ele pede escuta, atenção e tempo.
No fim, Hollow Knight: Silksong é sobre continuar sem se apagar. Sobre subir mesmo quando o corpo pesa. Sobre reconhecer os fios que nos formam e escolher, com cuidado, quais manter e quais soltar. É um jogo que entende que existir, apesar de tudo, já é um ato de coragem.
Artigo por: Habner Matheus
Arte por: Habner Matheus







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