O erro nunca foi acreditar
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Toda bolha financeira nasce com o mesmo defeito de fabricação: só é reconhecível depois de estourar. Enquanto dura, não tem esse nome. Tem outro: futuro, progresso, a vez em que finalmente "é diferente". O economista John Kenneth Galbraith batizou o mecanismo de "a extrema brevidade da memória financeira", a experiência passada, quando é lembrada, sendo descartada como o refúgio primitivo de quem não sabe reconhecer as maravilhas do presente. É por isso que ninguém, dentro de uma bolha, acredita estar numa. Acredita estar certo.
Comecemos pela mais antiga, porque ela é a exceção que ilumina todas as outras. Em 1720, a South Sea Company vendia ações lastreadas na promessa de um comércio sul-americano que reordenaria a riqueza do império britânico. O preço saltou de 128 para mais de mil libras em meses. Até Isaac Newton entrou: vendeu cedo com lucro, viu os amigos enriquecerem, não suportou ficar de fora, recomprou perto do topo e perdeu cerca de 20 mil libras, uma fortuna. Reza a lenda que, depois de quebrar, ele teria dito que conseguia calcular o movimento dos corpos celestes, mas não a loucura das pessoas. A frase é quase certamente apócrifa, mas sobreviveu três séculos porque descreve bem demais o que aconteceu com ele. Em setembro, o papel valia menos de um quarto do pico. Há, porém, um detalhe decisivo: o tal comércio sul-americano nunca existiu de verdade. Era monopólio inflado, suborno de parlamentares, recompra disfarçada. A South Sea foi uma bolha sem nada por baixo, pura ficção. E é justamente por isso que ela é a mais fácil de entender, e a menos parecida com o que veio depois.
Porque as bolhas seguintes têm uma característica muito mais desconcertante: aquilo que prometiam era verdade.
A ferrovia britânica dos anos 1840 é o caso exemplar. Depois que a rainha Vitória fez sua primeira viagem de trem em 1842, o país enlouqueceu. Em 1846, o Parlamento aprovou 263 leis autorizando novas companhias ferroviárias, com quase 15 mil quilômetros de linhas projetadas. Investidores compravam ações de qualquer projeto, muitos pagando em parcelas, alavancagem que ampliava tanto o ganho quanto a ruína. Quando as tarifas prometidas não se materializaram e o Banco da Inglaterra subiu os juros, o preço despencou pela metade entre 1846 e 1850. Um terço das linhas autorizadas nunca foi construído; famílias inteiras que haviam posto ali suas economias foram varridas. E, no entanto, os trilhos ficaram. A mania ferroviária deixou à Inglaterra uma rede de transporte que sustentou a Revolução Industrial por um século. O legado foi socialmente esplêndido e financeiramente ruinoso para quem o financiou. As duas coisas, ao mesmo tempo.
O rádio repetiu o roteiro nos anos 1920. Ninguém duvidava que a transmissão sem fio mudaria o mundo, e mudou. A RCA, sua maior representante, chegou a dividir com a Ford o posto de ação mais negociada da bolsa americana, símbolo de uma era que de fato chegou. Depois perdeu 97% do valor no crash de 1929. A tecnologia era real, o entusiasmo era justificado, e ainda assim quem comprou no topo foi à falência.
E então a internet, o exemplo mais fresco e o mais instrutivo, porque deixou seus escombros à vista. Nos anos 1990, dois gatilhos criaram uma corrida do ouro nas telecomunicações: a desregulamentação do setor e uma estatística que se revelaria falsa. A WorldCom espalhou a tese de que o tráfego da internet dobrava a cada cem dias. Não dobrava, crescia a um ritmo muito menor, mas o número virou artigo de fé e ninguém quis conferir enquanto o dinheiro entrava. Movidas por esse mito e por crédito farto, empresas como Global Crossing, WorldCom e Qwest tomaram dezenas de bilhões emprestados e enterraram fibra ótica cruzando os Estados Unidos e o fundo dos oceanos. Vendiam aquilo como progresso nacional, a "autoestrada da informação", a mesma retórica messiânica que cercara as ferrovias um século antes. E aqui está o detalhe que faz a história: a maior parte daquela fibra nunca foi usada. Estimativas apontam que menos de um décimo dela chegou a ser "acesa"; o resto ficou escuro, ocioso, cabo no chão sem sinal passando. Foi daí que veio o nome dark fiber.
Pior: para simular uma demanda que não existia, as operadoras passaram a vender capacidade ociosa umas às outras, os chamados capacity swaps. A trocava fibra com B, cada uma registrava a venda como receita, e o mesmo ativo parado aparecia como crescimento nos dois balanços. Era demanda fantasma, dinheiro dando a volta em círculo. Quando a WorldCom ruiu, em 2002, na maior falência da história americana até então, descobriu-se que boa parte de sua receita nascera exatamente aí. Entre 2000 e 2002, o setor perdeu mais de dois trilhões de dólares em valor de mercado; a ação da Global Crossing caiu de 169 dólares para 22 centavos. Centenas de milhares de empregos e fundos de pensão inteiros evaporaram.
E então, o segundo ato. A fibra escura não sumiu, estava no chão, era ótima, e agora barata. Quando o tráfego finalmente explodiu de verdade, anos depois, com o streaming, a infraestrutura já esperava, pronta e por centavos. Empresas que compraram esses ativos nas massas falidas herdaram uma malha global que virou a espinha dorsal do YouTube, do Netflix, da nuvem. A autoestrada da informação de fato se materializou. Só que o dinheiro que a construiu já tinha virado cinza, e quem colheu foi uma segunda geração de donos.
Esse é o padrão que quase ninguém enuncia direito. Não é que as bolhas prometem revoluções falsas. É o contrário: as revoluções foram verdadeiras. A ferrovia mudou a Inglaterra. A internet mudou o mundo. O rádio, a aviação, a fibra, todas cumpriram o que anunciavam, e algumas cumpriram muito além. Quem apostou que a tecnologia venceria estava certo. E ainda assim quebrou.
Aqui está o incômodo que fica. Se a promessa era real, se a revolução de fato veio, onde foi que o dinheiro se perdeu? Não na análise, a análise acertou. O erro nunca foi acreditar na tecnologia. Foi outra coisa, mais difícil de admitir porque não é intelectual, é humana: foi pagar qualquer preço para participar. Foi confundir "isso vai mudar o mundo" com "portanto qualquer valuation se justifica". Foi olhar para o vizinho enriquecendo e não suportar ficar de fora. O que hoje se chama de FOMO, o medo de ficar de fora, é apenas o nome novo de uma coisa velha, que já derrubou Newton em 1720: a incapacidade de aceitar que estar certo sobre o futuro não é o mesmo que estar certo sobre o preço. As ferrovias eram o futuro; quem pagou o dobro por elas ainda quebrou. A internet era o futuro; quem comprou fibra para uma demanda que só chegaria dez anos depois ainda quebrou.
E é por isso que esse erro não tem cura, ao contrário do que se poderia esperar. Um erro de cálculo se corrige com melhor informação. Mas o erro das bolhas não é de informação, é de desejo. É querer estar dentro, é a inveja de ver o outro ganhar, é a pressa de não perder o barco. Nenhuma quantidade de história ensina isso, porque a lição não é sobre o que se sabe, é sobre o que se sente. Galbraith já dizia: a memória financeira é curta não porque as pessoas esquecem os fatos, mas porque cada geração precisa acreditar que a sua euforia é diferente.
Não sei se estamos numa bolha agora. Ninguém sabe, e desconfio de quem afirma com certeza qualquer coisa sobre o presente. Bolhas, como Howard Marks lembrou num memorando recente, só se identificam em retrospecto. Mas de uma coisa a história não parece abrir mão: quando a próxima revolução verdadeira chegar, e ela chegará, o perigo não estará em duvidar dela. Estará em amá-la a ponto de pagar qualquer preço para não ficar de fora. A tecnologia quase sempre entrega o que promete. É o desejo humano de embarcar nela que nunca soube a hora de parar.
Autor: Emanuel Weber
Arte por: Matheus Vaz




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