O Brasil Ainda Sabe Esperar
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- 5 de jun.
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Atualizado: 11 de jun.
Há algo de profundamente brasileiro em voltar a acreditar.
A cada quatro anos, mesmo quando o país parece cansado de si mesmo, a Copa do Mundo nos devolve uma espécie de infância coletiva. As ruas ganham bandeiras, as janelas se vestem de verde e amarelo, os horários mudam, as conversas se encontram e, por algumas semanas, a pergunta mais importante parece ser a mesma em todos os lugares: será que agora vem?
O hexa, para o brasileiro, nunca foi apenas um título. É uma espera. É uma promessa antiga guardada na memória de quem viu 2002, de quem ouviu falar de 1970, de quem aprendeu que Pelé, Garrincha, Romário, Ronaldo e tantos outros não foram apenas jogadores, mas personagens de uma história que o país conta sobre si mesmo quando precisa lembrar que ainda é capaz de encantar.
E, no centro dessa esperança, volta a aparecer uma fi gura que o Brasil conhece desde menino: Neymar.
O “menino Ney” cresceu diante dos nossos olhos. Foi promessa, realidade, espetáculo, cobrança, frustração, genialidade e controvérsia. Como todo grande personagem popular, nunca foi recebido com indiferença. Com ele, o Brasil aprendeu a admirar, cobrar, criticar e, ainda assim, esperar. Talvez porque Neymar represente, em alguma medida, uma parte contraditória do próprio país: talentoso, imprevisível, ferido algumas vezes, contestado muitas outras, mas ainda capaz de despertar a sensação de que algo extraordinário pode acontecer a qualquer momento.
Há quem olhe para ele e veja apenas o passado. Há quem enxergue um último ato. Mas talvez a Copa não peça apenas juventude, regularidade ou estatística. Talvez ela também peça memória, coragem e a difícil arte de voltar. Neymar, nesse sentido, não carrega apenas a expectativa por gols ou assistências. Carrega a narrativa de quem ainda pode reencontrar sua melhor versão quando o Brasil mais precisa acreditar.
Mas a esperança brasileira não pode depender de um só jogador. O hexa, se vier, será obra de uma geração inteira. Será dos jovens que chegam com ousadia, dos experientes que sustentam a responsabilidade da camisa, dos que entendem que vestir a Seleção exige mais do que talento: exige entrega.
A Copa do Mundo tem essa força porque trabalha com o improvável. Nem sempre vence quem chega melhor. Nem sempre perde quem chega desacreditado. A competição é feita de detalhes, sustos, superações e histórias que só parecem possíveis depois que acontecem.
O Brasil sabe que o futebol mudou. A camisa já não vence sozinha, a tradição não decide partida e o mundo aprendeu a competir em alto nível. Ainda assim,nenhuma seleção carrega o mesmo peso simbólico quando o assunto é Copa do Mundo. O Brasil é o país que ensinou o mundo a chamar futebol de arte.
Talvez seja isso que a busca pelo hexa represente: a tentativa de reencontrar uma alegria comum.
Em tempos de tantas divisões, a Copa ainda oferece ao Brasil uma experiência rara de pertencimento. Durante noventa minutos, o país volta a falar a mesma língua: a língua do susto, da bronca, da esperança, da superstição e da comemoração.
Por isso, quando a Seleção entrar em campo, não estará sozinha. Com ela estarão os que viram o penta, os que só ouviram falar, os que cresceram esperando o hexa, os que criticam porque se importam e os que se emocionam mesmo tentando disfarçar.
E estará também o menino Ney, já não tão menino, mas ainda cercado por aquela pergunta que acompanha os grandes jogadores: será que ainda há magia?
O Brasil espera que sim.
Não por ingenuidade, mas porque acreditar também é uma forma de resistência. Porque a Copa do Mundo não resolve os problemas do país, mas por alguns dias nos lembra de algo que não deveríamos esquecer: ainda somos capazes de nos reunir em torno de um sonho.
E, enquanto houver bola rolando, camisa amarela em campo e um povo disposto a acreditar, o hexa seguirá sendo mais do que uma possibilidade esportiva.
Será uma esperança nacional.
Autora: Heloisa Felchak
Arte por: Matheus Vaz




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