A DELICADEZA DO QUE SE REPETE
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Assistir a Dias Perfeitos¹ é como abrir uma fresta no cotidiano e descobrir que o banal carrega o extraordinário. Hirayama, o protagonista, limpa banheiros públicos em Tóquio. O trabalho repetitivo, aparentemente insignificante, revela-se um ritual quase sagrado. A cada vaso sanitário polido, há uma espécie de retorno ao gesto mínimo, à precisão do detalhe, como se a vida pudesse se sustentar em pequenas eternidades. Como se cada movimento repetido dissesse que existir também é cuidar daquilo que quase ninguém vê.
Hirayama encarna a figura daquele que se reconcilia com o vazio. Ele não luta contra a falta, não tenta tamponá-la com excessos, distrações ou demandas incessantes. Vive no intervalo, no entre. Sua rotina é marcada por repetições que, longe de aprisioná-lo, lhe conferem liberdade. Ele habita o tempo: sem a urgência de produzir mais, de possuir mais ou de tornar cada dia memorável. Apenas permanece.
Freud já dizia que a repetição é também uma forma de elaboração. Repetimos não apenas porque estamos presos ao passado, mas porque há algo que insiste em buscar uma nova inscrição. Lacan, por sua vez, lembraria que o desejo se sustenta justamente nessa cadência que nunca se completa. A rotina de Hirayama nunca parece vazia. Ela não elimina a falta. Apenas deixa de travar uma guerra contra ela.
Os banheiros limpos, as árvores fotografadas, as fitas cassete tocadas em seu carro antigo, os livros lidos antes de dormir, tudo aponta para uma estética da simplicidade. É o encontro com o real, com aquilo que escapa às grandes narrativas, mas insiste na experiência de viver. Há beleza justamente porque nada precisa ser espetacular.
O protagonista parece nos dizer que a vida não precisa de grandes acontecimentos para ser plena. Ela se cumpre no instante, no gesto aparentemente sem valor, que se torna portador de sentido quando se olha com delicadeza.
O extraordinário não está nos acontecimentos, mas na forma como nos colocamos diante deles.
Na verdade, o filme nos confronta com uma pergunta: e se a felicidade não estivesse no extraordinário, mas justamente no que se repete todos os dias? O café preto servido pela manhã. O olhar lançado para o céu antes de começar o trabalho. A sombra das árvores que muda discretamente conforme as estações. O "perfeito" não como aquilo que impressiona, mas como o que permanece.
Wim Wenders nos ensina, com sua delicadeza, que viver não é acumular dias, mas habitá-los. Que há uma diferença entre atravessar o tempo e realmente estar nele. E que o sujeito, quando se permite existir sem a ânsia de completude, descobre que até limpar um banheiro pode ser um gesto de amor. Não porque o trabalho seja grandioso, mas porque a presença, quando inteira, transforma qualquer gesto em uma forma de cuidado.
¹ Disponível na plataforma MUBI e Netflix
Autora: Anna Luisa Loyola
Arte por: Matheus Vaz




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