Processos judiciais de família: justiça ou vingança?
- Convidados

- 11 de jun.
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As disputas judiciais, especialmente na esfera do Direito de Família, são exaustivas. Há um desgaste físico, emocional e, por que não, espiritual, que atravessa diversas camadas da família. Não atinge apenas quem assina a petição inicial ou quem figura no polo passivo. Atinge filhos, avós, novos companheiros, rotinas inteiras. A casa muda de clima. O corpo sente. O sono piora. A vida passa a girar em torno de prazos, audiências, prints, provas e versões.
E, em algum ponto do caminho, algo muda.
Já não se busca mais aquele objetivo primeiro. A guarda. A convivência saudável. O cuidado. O afeto. O encerramento digno de um vínculo que terminou.
O processo deixa de ser um instrumento de resolução e passa a funcionar como palco. Cada parte apresenta o seu espetáculo particular de dores, acusações, ressentimentos e lamentações. Um verdadeiro show de horrores. Não raro, o Judiciário passa a ocupar o lugar de árbitro de feridas muito mais antigas e profundas do que o próprio conflito jurídico.
A ação deixa de discutir apenas fatos juridicamente relevantes e passa a carregar pedidos silenciosos que nenhuma sentença pode acolher:
“quero que ele sinta a dor que eu senti.”
“quero que ela pague pelo que fez.”
“quero ser reconhecido como vítima absoluta dessa história.”
E aí mora uma frustração inevitável.
Porque o processo judicial pode fixar guarda, regulamentar convivência, arbitrar alimentos, homologar partilhas. Pode decidir sobre patrimônio e responsabilidades parentais. Mas ele não devolve o tempo perdido. Não reconstrói confiança. Não obriga ninguém a amar melhor. E, principalmente, não cura humilhação, abandono ou ressentimento.
Quando a sentença chega, muitas vezes vem acompanhada de uma sensação estranha: ganhou-se o processo, mas permanece um vazio difícil de nomear.
“Era só isso?”
“Mas vai ter que ser assim?”
Isso acontece quando o que se buscava nunca foi propriamente justiça. Buscava-se reparação emocional por vias inadequadas. Buscava-se revanche com roupagem jurídica.
E o Direito não foi feito para operar como instrumento de vingança.
O problema é que, quando adultos transformam o processo em campo de batalha emocional, frequentemente existem crianças assistindo da primeira fila. E elas costumam pagar a conta mais alta.
Nem todo conflito pode ser evitado. Existem situações graves que exigem, sim, intervenção firme do Judiciário. Violência, abandono, negligência e abusos não podem ser romantizados em nome de uma falsa pacificação.
Mas, fora dessas hipóteses, talvez a pergunta que deve ser feita antes litigar seja: eu quero resolver isso ou eu quero vencer alguém? Parece uma pergunta simples. Raramente é. Mas ela evita que o processo se transforme na continuação do sofrimento por outros meios.
Autor: Anna Luisa Loyola
Arte por: Matheus Vaz




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