Nuremberg não terminou em 1946
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- 24 de jul.
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Atualizado: 27 de jul.
Há filmes que terminam quando sobem os créditos. Nuremberg não é um deles.
Você sai da sala levando uma pergunta que pesa mais do que qualquer cena: como foi possível? Como uma das sociedades mais cultas da Europa assistiu, participou e, muitas vezes, aplaudiu a construção da maior máquina de extermínio?
A resposta seria mais confortável se estivesse restrita aos monstros. Mas talvez seja justamente esse o motivo pelo qual o julgamento de Nuremberg continua tão necessário: ele nos obriga a admitir que as maiores tragédias da humanidade não nasceram apenas da maldade. Elas nasceram, também, da obediência, da omissão e da incapacidade de questionar.
O nazismo não surgiu no vazio. Encontrou uma Alemanha humilhada pela Primeira Guerra Mundial, devastada economicamente, mergulhada no desemprego, na inflação, e na desesperança. Foi nesse cenário que um discurso sedutor apareceu prometendo ordem, prosperidade, um futuro melhor e orgulho nacional.
O resto conhecemos.
Pouco a pouco, judeus, ciganos, pessoas com deficiência, homossexuais, opositores políticos e tantos outros passaram a ser apresentados como a origem de todos os problemas da nação.
O nacionalismo foi transformado em fanatismo. A propaganda substituiu o pensamento crítico. A imprensa foi controlada. O medo virou ferramenta política. A educação passou a servir ao regime. Minorias passaram a ser responsabilizadas pelos problemas de toda uma nação. Pouco a pouco, o absurdo deixou de parecer absurdo. Nenhum genocídio começa com câmaras de gás. Começa quando uma sociedade aprende a enxergar algumas pessoas como menos humanas do que outras.
É impossível assistir ao filme sem lembrar de Hannah Arendt e de sua célebre ideia da banalidade do mal. Quase quinze anos depois de Nuremberg, em 1961, Arendt acompanhou o julgamento de Adolf Eichmann, um dos principais responsáveis pela logística que levou milhões de judeus aos campos de extermínio. Arendt não encontrou um homem excepcionalmente perverso. Encontrou alguém assustadoramente comum. Um burocrata eficiente. Um homem que repetia, quase mecanicamente, que apenas cumpria ordens.
E foi justamente essa normalidade que a aterrorizou. A banalidade do mal nunca significou que o holocausto foi banal. Poucos acontecimentos na história foram tão cruéis e desumanos. O que Arendt chamou de banal era o próprio autor. Porque o mal nem sempre nasce do prazer em destruir o outro, as vezes ele nasce da incapacidade de pensar criticamente, da renúncia a responsabilidade moral, da aceitação cega a autoridade.
O mal nem sempre se apresenta com a aparência que esperamos. Muitas vezes, ele veste um terno, cumpre horários, assina documentos e executa tarefas sem jamais se permitir pensar nas consequências delas. Quando ninguém questiona, a consciência terceiriza a responsabilidade.
Quando deixamos de refletir sobre nossos próprios atos, quando terceirizamos nossa consciência para alguém que decide por nós, abrimos um espaço para que atrocidades sejam cometidas por pessoas absolutamente comuns. Talvez essa seja uma das ideias mais perturbadoras já escritas sobre a natureza humana. Ela destrói a confortável ilusão de que tragédias como o holocausto só podem ser produzidas por monstros.
Arendt nos obriga a encarar uma possibilidade muito mais desconfortável: qualquer sociedade, diante das circunstâncias certas, pode produzir pessoas capazes de participar do horror se elas deixarem de pensar, de questionar e de enxergar humanidade no outro.
Apesar de distintos, os dois julgamentos enfrentavam uma mesma questão fundamental: até onde vai a responsabilidade de quem comete atrocidades em nome de um Estado e afirma estar apenas obedecendo a ordens?
Pela primeira vez, afirmou-se que "eu apenas obedecia a ordens" não bastava como defesa. Que existem crimes tão graves que ultrapassam fronteiras, governos e legislações nacionais. Que existe uma responsabilidade individual que não desaparece diante da autoridade.
O tribunal não julgou apenas líderes nazistas. Julgou uma ideia. Pela primeira vez na história, afirmou-se que nenhum Estado possui autorização para cometer atrocidades contra sua própria população ou contra outros povos. E que nenhuma ordem superior é capaz de apagar a responsabilidade individual pelos próprios atos. Hoje essas ideias parecem naturais, mas não eram.
Grande parte do Direito Penal Internacional moderno nasce em Nuremberg. Os conceitos de crimes contra a humanidade, genocídio, responsabilidade penal individual e a impossibilidade de utilizar “eu apenas obedecia a ordens” como defesa. Décadas depois, esses princípios permitiriam a criação do Tribunal Penal Internacional. Mais do que condenar culpados, Nuremberg estabeleceu um limite moral para o poder. A mensagem era clara: nenhum governante, nenhum militar, nenhuma autoridade esta acima da dignidade humana.
Mas a história também exige honestidade. Há uma aparente contradição impossível de ignorar. Os vencedores julgavam os vencidos.
Enquanto o mundo assistia aos crimes nazistas serem expostos — e era correto que fossem — os Aliados também carregavam seus próprios capítulos de violência. Os bombardeios incendiários sobre cidades alemãs, cidades japonesas Hiroshima e Nagasaki, estupros em massa cometidos durante o avanço soviético e outras violações dificilmente receberam o mesmo tratamento jurídico.
Isso não torna o julgamento ilegítimo, longe disso. Foi extremamente necessário. Mas essa assimetria nos lembra que a justiça internacional também nasce marcada pelas limitações da política e pelas relações de poder.
Nuremberg foi, ao mesmo tempo, um extraordinário avanço civilizatório e um tribunal conduzido pelos vencedores da guerra. As duas afirmações podem ser verdadeiras ao mesmo tempo. Reconhecer essa complexidade não diminui a importância do julgamento. Pelo contrário. Torna-o mais humano e mais honesto.
Talvez a maior lição de Nuremberg seja justamente esta: a memória não existe para alimentar culpa. Existe para impedir repetições. Há quem diga que devemos esquecer para seguir em frente. Eu penso exatamente o contrário. Esquecer é um luxo que a história nunca nos permitiu.
Porque as condições que permitiram o surgimento do nazismo continuam existindo, sob outras formas: crises econômicas profundas, discursos que oferecem soluções simples para problemas complexos, líderes que transformam adversários em inimigos, ataques às instituições, manipulação da informação, medo convertido em ferramenta de poder e a perigosa desumanização daqueles que pensam diferente.
Nenhuma sociedade está vacinada contra isso. A democracia não desaparece de um dia para o outro. Ela se desgasta lentamente, sempre acompanhada da falsa sensação de que "isso nunca aconteceria aqui".
Talvez seja por isso que filmes como Nuremberg continuem sendo tão importantes. Eles não falam apenas sobre o passado. Falam sobre nós. E nos lembram que a barbárie nunca começa com o primeiro disparo. Ela começa muito antes. Começa quando deixamos de pensar. Quando deixamos de questionar. Quando aceitamos que algumas vidas valem menos do que outras.
É por isso que Nuremberg não pertence apenas aos livros de História. Pertence a todos os dias em que escolhemos defender a democracia, a dignidade humana e o direito de nunca mais permitir que a humanidade esqueça do que é capaz.
Dizem que o tempo cura tudo. Mas há feridas que não existem para serem curadas, existem para serem lembradas. Nuremberg não devolveu a vida de milhões de pessoas, não apagou Auschwitz, não desfez o sofrimento de quem sobreviveu. O que ele fez foi diferente, transformou a memória em um compromisso. O compromisso de nunca permitir que qualquer ideia seja grande o suficiente para roubar a humanidade de ninguém. Porque a história só deixa de se repetir quando nos recusamos a esquecê-la e o esquecimento sempre foi o maior aliado da barbárie.
Afinal, Nuremberg não julgou apenas o nazismo. Julgou a perigosa capacidade humana de transformar o inaceitável em rotina. Que essa seja a única sentença que jamais prescreva.
Autora: Glória Maria Almeida Farracha de Castro
Arte por: Matheus Vaz




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